Em 1985, ao retornar para casa após mais um dia de trabalho, encontrei minha esposa acometida de uma inexplicável tremedeira. Entretanto, ela não estava doente e me disse que ficara assim após voltar da casa de uma amiga que se dizia espírita e que lhe dissera que aquela tremedeira tinha o nome de mediunidade.

Como eu e minha esposa não sabíamos o que era ser espírita, Espiritismo ou o que significava a palavra mediunidade, fui atrás de respostas. Foi quando tive a grata e maravilhosa surpresa de ser apresentado à Doutrina dos Espíritos. Inicialmente pareceu amor à primeira vista, embora em vários momentos ao longo dos anos, ao ler coisas que me pareciam uma releitura, assemelhava-se mais a um reencontro, o que posteriormente me foi confirmado por amigos espirituais.

Como sempre fui um leitor compulsivo, em pouco tempo eu já havia lido a Codificação e vários livros da série André Luiz. É evidente que eu gostei de todos. Entretanto, o que eu achava meio estranho, era a notoriedade que envolvia o médium Chico Xavier. Afinal, pelo que eu lera até então, para mim ele era “apenas” um médium, um “simples” instrumento da Espiritualidade amiga que nos brindava com obras sérias e maravilhosas.

O que eu desconhecia, por absoluta ignorância intelectual, era a importância fundamental e indispensável, que a despeito de “simples”, um instrumento precisa estar perfeitamente afinado para que o músico possa apresentar sua música com perfeição. E com o médium, não era diferente.

Para que nossos irmãos do além possam nos deixar suas mensagens, suas obras, etc., faz-se necessário que o aparelho físico de que se servem, o médium, esteja afinado, sintonizado, em perfeitas condições.

Quando alguém queria dar credibilidade ao que dizia, costumava usar o Chico como avalista:

─ Por que o Chico...

─ Mas foi o Chico que disse...

Eu ficava até meio irritado com aquele endeusamento. Hoje, continuo sendo contrário ao endeusamento de qualquer pessoa, médium ou não, mas houve duas situações que vivenciei que me mostraram como eu estava sendo injusto, haja vista que endeusar o Chico, é uma coisa bem diferente do que reconhecer seus incontestáveis e reais atributos morais e pessoais.

O irônico nas duas situações que vou relatar, é que eu descobri o “tamanho”, a envergadura moral do Chico, graças aos comentários de duas pessoas de religiões diferentes da nossa.

O primeiro comentário partiu de um amigo e colega de profissão, o pastor evangélico Rivadávia Cavalcante (nome fictício), quando após conversarmos durante uma semana sobre religião, disse-me:

─ Agnaldo, que grande pastor evangélico não daria o Chico Xavier!

Eu fiquei abismado com aquela declaração, até por que conhecia bem meu amigo pastor e sabia o quanto ele era pragmático.

O segundo comentário aconteceu quando eu participei na condição de representante do Espiritismo, em um culto ecumênico na formatura de uma turma de Direito, ao lado de um padre e de um pastor. Conversamos bastante e em dado momento, como o nome de Chico Xavier surgiu, o prezado padre Fábio Cadengue (nome fictício) disse-me, não sem antes olhar para os lados para ver se alguém iria ouvir o que ele me diria:

─ Doutor Agnaldo, cá pra nós, eu acho um desperdício o Chico ser espírita. Já pensou que Bispo, Cardeal ou até Papa, ele daria?

Foi quando eu descobri que estava fazendo uma leitura totalmente errada da pessoa e da obra de Chico Xavier. A partir daí eu procurei conhecê-lo mais, estudando o homem, sua biografia, sua obra, além dos fatos sobre sua vida que chegavam ao conhecimento de todos.

Qual a consequência? Eu me vi diante de um monumento vivo que transpirava, que externava, que vivenciava diuturnamente o amor, a humildade, a paciência, a caridade, a dedicação, o desprendimento, etc., etc., etc.

Eu me vi diante da maior parabólica mediúnica que a terra já vira, após o mestre Jesus! Um missionário de escol que quando alguém procurava exaltar, massagear seu ego ou despertar sua vaidade, costumava responder:

─ Eu? Mas meu filho, eu não passo de um pequeno cisco!

Este foi o Chico Xavier que encontrei e que deixou triste a mim e a milhões de pessoas, quando concluiu seu missionário trabalho na terra e voltou para o mundo espiritual. O Chico voltara para casa...

─ E agora? O que será do Espiritismo? Quem irá substituí-lo?

Era a pergunta que não calava nos corações e mentes dos que conheciam Chico e seu inigualável trabalho. Era quase palpável a condição de órfãos em que a grande maioria dos espíritas se colocou.

─ O desencarne do nosso médium maior, Chico Xavier, irá paralisar o movimento espírita, principalmente no Brasil?

Era a grande e temida dúvida de muitos espíritas. Tão grande que esqueciam de uma das maiores verdades que o Espiritismo nos ensinava: que ninguém morre! E no caso do querido e inesquecível Chico Xavier, pela envergadura da sua obra, ela até ficou maior, muito maior, depois que ele se foi.

Chico retornou para pátria espiritual, mas eternizou-se para os espíritas e para muitos seguidores de outras religiões, não somente pela sua inigualável produção psicográfica, mas principalmente pela sua vida marcada por exemplos edificantes.

Como um verdadeiro apóstolo do Cristo, sob cujas ordens o médium serviu aos Espíritos Superiores, durante 75 anos, Chico viveu exclusivamente pelo e para os outros, usando seus dons mediúnicos como um abençoado instrumento de esclarecimento e de consolação a milhares de pessoas tristes, angustiadas, desnorteadas e inconsoláveis pelo que consideravam a “perda” de entes queridos.

Chegado o momento de deixar a terra, Chico Xavier desencarnou quando todos os brasileiros estavam felizes pela conquista do Pentacampeonato Mundial de Futebol. Coincidência? Acaso? Mas não sabemos que não existe acaso e que as “coincidências são feitas para coincidirem”?
Passada a euforia da conquista futebolística e ao tomar conhecimento que Chico voltara para a Pátria Espiritual, a dúvida crescia entre as fileiras espíritas:

─ E agora? O que vai ser do Espiritismo sem nosso líder?

Haveria alguma razão para se temer sobre o futuro do Espiritismo? Inicialmente, podemos afirmar que havia alguma lógica sim, com tal preocupação, por que antes de Chico Xavier, o movimento de divulgação era muito pequeno, as obras eram poucas, o respeito ao Espiritismo era deplorável. Com Chico a divulgação começou a se fazer de forma mais intensa, foram fundados jornais, revistas, começou a haver distribuição de mensagens, de panfletos. Ou seja: o Espiritismo que nasceu na França com Kardec, cresceu e se desenvolveu no Brasil com Chico Xavier.

Foram 418 livros psicografados pelo Chico Xavier, o que se caracterizou como o marco fundamental para a difusão do Espiritismo pela via literária. Some-se aí o incansável atendimento mediúnico consolador. Além disso, ele conquistou o respeito de praticantes de outras religiões, para si e para o próprio Espiritismo.

Não é de forma gratuita que os dirigentes e estudiosos espíritas chegam a qualificá-lo como um divisor de águas. “Não é sem razão que afirmamos existir um movimento espírita antes e depois dele”, salienta Marlene Nobre, presidente da Associação Médica Espírita, uma das lideranças da Doutrina Espírita no Brasil. Assim, não há dúvida que Chico foi e continua sendo um forte referencial no Espiritismo.

O Espiritismo é o Consolador Prometido e nós vimos a Doutrina Espírita, através de Chico Xavier, consolando as almas aflitas e saudosas do mundo. Só de mensagens ditas familiares, ele psicografou mais de cinquenta livros, atividade sobremodo importante, porque foi a partir dessas mensagens que a Doutrina Espírita começou a penetrar no meio não espírita, com as noticias correndo, a famosa propaganda “boca a boca”, e as mães, os pais, os filhos, indo a Uberaba independentemente de suas crenças.

Ali acorriam pessoas que entravam no Grupo Espírita da Prece se benzendo, fazendo o “Nome do Pai” ou até murmurando baixinho “aleluia”, que evidentemente não eram espíritas, não acreditavam no Espiritismo, mas acreditavam em Chico Xavier. Acreditavam nele, no trabalho dele e isso fez com que a Doutrina Espírita chegasse onde antes não tinha conseguido.

Mas não precisávamos temer pelo futuro do Espiritismo, nem insistir em achar um substituto para Chico. Quando Allan Kardec desencarnou, os seus discípulos também se fizeram essa mesma pergunta. Como seria a Doutrina sem o Codificador? E a Doutrina dos Espíritos cresceu, avançou, porque a Doutrina Espírita antes de ser dos espíritas é dos espíritos!

Mesmo com o Chico Xavier, fisicamente ausente, o Espiritismo caminhará para frente, porque seu exemplo é muito forte em nossas memórias, além do fato incontestável de que ele vive em cada página de seus livros psicografados e no coração de cada mãe que foi consolada com uma mensagem mediúnica.

Quanto à sucessão de Chico Xavier, ninguém substitui ninguém, cada qual vem à Terra cumprir sua própria missão, cumprir o seu próprio dever, até por que na Doutrina Espírita não há nenhuma hierarquia. O Espiritismo não tem chefes encarnados, o nosso Mestre é Jesus, a Doutrina que seguimos, não é nossa, ela é dos Espíritos, e caminhará sempre, com os homens, sem os homens e apesar dos homens.

É impressionante a insistente preocupação da mídia, especialmente a espírita, (hoje bem menos) em procurar saber, por todos os meios e em todas as entrevistas com pessoas ligadas ao Espiritismo, sobre quem seria o sucessor de Chico Xavier. Um nome recorrente era o Divaldo Franco, que absolutamente consciente que não existe transmissão de mandato mediúnico, tratou de esclarecer de forma taxativa o assunto. Quando indagado sobres se ele seria o sucessor de Chico, ele foi enfático:

─ “Para mim, seria muito bom se eu tivesse os valores que ele tem. Chico Xavier concluiu sua tarefa de maneira muito perfeita e brilhante. A tarefa a que eu me dedico tem outro caráter”.

E ainda, o mesmo Divaldo em entrevista ao Jornal O POVO, de Fortaleza, disse, respondendo se ele seria o sucessor de Chico:

─ “Chico Xavier permanece como sendo o apóstolo da mediunidade, inigualável, como homem, médium e servidor cristão. A informação de que eu seria o seu substituto, é totalmente destituída de legitimidade, porquanto, em Espiritismo ninguém sucede a outrem, cada qual desempenha a tarefa para a qual reencarnou, mediante as possibilidades que lhe estejam ao alcance.”

Se é verdade que ninguém é insubstituível, embora pareça paradoxal, a história dos povos ao longo dos tempos, mostra-nos que ninguém substitui ninguém, principalmente nas tarefas dos grandes missionários.

Jesus, o Mestre dos Mestres, é cada vez mais amado pela humanidade, sem que necessitasse ter um substituto...

Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, não precisou de sucessores para que o espiritismo alcançasse estágio tão elevado, não só no Brasil, como em outros países...

E o Espiritismo continuará a crescer, mesmo sem o concurso físico do nosso querido e inesquecível Chico Xavier, o instrumento afinado por excelência, de que a Espiritualidade se serviu para espalhar na Terra a luz do esclarecimento de acordo com as propostas que o Espiritismo anuncia.

Mas... Para aqueles que insistem em um substituto para o Chico, vou contar-lhes um segredo. O Chico deixou sim um substituto. Ele mesmo o escolheu. Desejam saber quem é? Vou lhes contar, fazendo minhas as palavras de Camille Flammarion:

─ “A obra substitui o obreiro”!

Eis aí o substituto de Chico Xavier: sua incomparável obra! Mais de 400 livros, milhares de cartas consoladoras e noventa e dois anos de edificantes exemplos. Poderia haver substituto melhor?

Finalizo convocando meus irmãos cristãos a juntos comigo, pensar na seguinte possibilidade:

Se o Chico era apenas um “pequeno cisco”, que tal nos esforçarmos para sermos alguma coisa? Paz e Luz nos corações de todos.

Agnaldo Cardoso
NEAM/Olinda
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