Por: Robinson Soares Pereira

Nós Espíritas precisamos refletir com bastante profundidade a questão da Caridade. Vez por outra o Movimento Espírita se depara com uma novidade, próprio da criatura humana que busca a melhora nos trabalhos que são desenvolvidos dentro das Casas Espíritas. Mas há que se ter muito cuidado quando a questão envolve pessoas e base doutrinária.


Tem-se divulgado por aí em palestras, seminários, simpósios etc, até por oradores e escritores famosos dentro do movimento espírita, que as Casas precisam deixar esse trabalho de "assistencialismo", dando sopa, cestas básica, roupas, calçados e outras coisas mais. Pois, segundo esses confrades, há que se "promover" a pessoa à condição de não depender mais desse tipo de ajuda.

O famoso ditado popular: “Não só dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Com muita propriedade os Departamentos de Assistência Social das Casas Espíritas, passaram de alguns anos para cá, a se denominarem Departamento de Assistência e Promoção Social Espírita - DAPSE, ou "SAPSE", no caso de Serviço. Primeiro vamos tratar da questão do "assistencialismo".

Em Mateus, cap: 25, vv: 35, diz o Mestre Jesus - "Pois tive fome e me deram o que comer; tive sede e me deram de beber; fui estrangeiro e me acolheram; necessitei de roupas e me vestiram; estive enfermo e cuidaram de mim; estive preso e me visitaram"... Tirando apenas a última frase, que se pode entender como uma "ação moral", todas as outras são "ações materiais", ou seja, dar coisas mesmo. Em outra fala de Jesus, Lucas cap 4, vv 4: "Nem só de pão viverá o homem...” Então vejamos: Nem só de pão, ou seja, o homem, necessita basicamente do alimento material. Com certeza estando na matéria temos necessidade do alimento material. Aqueles que pensam que as Casas devam parar com a assistência material talvez nunca sentiram fome. Mas posso lembrá-los de uma situação que com certeza muitos já experimentaram: o jejum de 12 horas para se fazer um simples exame de sangue. E embora seja de apenas 12 horas, muitos nos dizem: - Fiquei louco para fazer logo o exame e entrar na padaria mais próxima ao laboratório para comer alguma coisa.

É bom lembrar que muitos dos assistidos das nossas Instituições ficam mais de 24 horas sem comer nada e por várias vezes em um mês. Os pessimistas ainda costumam dizer: - De que adianta sopa 2 vezes por semana? Esquecem que muitas vezes naquele dia, é só o que os assistidos irão comer.

Vamos analisar a fala de Tiago na sua carta, após o livro de Hebreus, já no final da Bíblia, quando ele trata da questão da "Fé e Obras" no capítulo 2, vv: 14 em diante. Diz ele: -"De que adianta alguém ter fé se não tem obras. Acaso a fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês disser: - Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também é a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta!

Lembrando o saudoso Chico Xavier naqueles dias de distribuição em Pedro Leopoldo e depois em Uberaba, quando filas imensas de necessitados ficavam a sua porta e ele, pacientemente, distribuía pão, às vezes leite, e até dinheiro. Isso mesmo, dinheiro! Fazia o Chico assistencialismo? Mas era aquele pãozinho e o mirrado dinheirinho que salvava tanta gente da miséria naqueles dias. Dizem aqueles que já experimentaram a fome que a pessoa perde até a sua dignidade. E outros dizem que com estômago vazio é quase impossível interessar-se por qualquer outra coisa senão alimentar-se.

Nem mesmo rezar se consegue quando se tem fome. Vamos citar apenas mais um ensino de Jesus sobre esse tema: a caridade. Está em Lucas, cap.: 10, vv: 5 a 37: A parábola do Bom Samaritano que é do conhecimento de todos os espíritas. Nela vemos o cuidado do samaritano com o homem que fora assaltado e estava machucado e caído ao longo do caminho. E foi o samaritano na fala de Jesus que mais amou aquele homem. E por quê? - Porque o assistiu materialmente nas suas necessidades imediatas.

Portanto, o que alguns agora só entendem como assistencialismo sempre foi o diferencial da Doutrina Espírita para as outras religiões. Até mesmo irmãos de outros credos nos dizem: vocês espíritas fazem mesmo a caridade. Aliás, a bandeira da Caridade é o nosso Estandarte Doutrinário, pois quando Kardec coloca o "Fora da Caridade não há salvação", a sua afirmativa é baseada na fala e nos atos de JESUS. Lendo, recentemente, uma obra sobre o tema Caridade, o autor afirma que na questão 886 do Livro dos Espíritos, que pergunta: - "Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade com a entendia Jesus?

O autor explica que Jesus só fala da caridade moral. Mas se atentarmos que na resposta dos espíritos na sua primeira parte diz: - “Benevolência” para com todos, e Kardec na sua nota após a resposta dos espíritos afirma: - Amar ao próximo é fazer todo o bem que nos seja possível. Todo o bem, ao que nos parece, inclui tudo: caridade material e moral. E no segundo parágrafo, o Codificador acrescenta: - A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola. Ou seja, não se restringe; então a esmola também é caridade!

Agora vamos a questão da "Promoção Social". É claro que nós também somos a favor de que os nossos "assistidos" aprendam, conforme artigo nosso na revista Reformador de dezembro de 2003 com o título: "Andar com as próprias pernas" (grifo nosso) para não se acostumarem com a ajuda e acharem que isso irá durar para sempre.

Até mesmo, nas nossas escolas de evangelização, temos que estimular sempre as crianças e os jovens das juventudes ou mocidades espíritas a estudarem sempre e terem uma profissão. Mas não podemos nos esquecer que nesses bolsões de misérias, de onde vêm algumas famílias às nossas Instituições, são famílias compostas de crianças, idosos, doentes, pessoas semi ou analfabetas mesmo, em situação de miséria absoluta. E aí não adianta dizer: - Têm o bolsa não sei o que lá, tem o programa do governo tal e tal, se muitos não tem nem como mandar os filhos à escola. Pois já tivemos a oportunidade de ver crianças que não tem sequer roupa para sair do barraco de lona e pedaços de madeira, muito menos dinheiro para ir até a escola.

Sabemos que muitas dessas crianças quando conseguem ir à escola, vão na sua maioria, pela alimentação que recebem lá, mais do que pelas aulas. Como dizer a um desvalido desses: - Em tal lugar você se inscreve nesse ou naquele programa, se eles muitas vezes também, nem documentos tem. Mas se os nossos confrades partidários da "promoção social" se dispuserem a levá-los em seus carros e providenciarem a retirada dos seus documentos e darem condições para que eles se locomovam até esses lugares, aí sim, estarão ajudando a que eles se "promovam" daí por diante.

Algumas Instituições Espíritas já tem cursos profissionalizantes ou trabalhos que conseguem inserir a pessoa no mercado, ou mesmo obter alguma renda para a família e, assim, diminuírem essa dependência do auxílio material. Essas Casas sim estão trabalhando dentro da promoção das pessoas. Ou mesmo aquelas que têm "serviços" de encaminhamento à Órgãos governamentais ou políticas públicas de promoção social, já podem se enquadrar nessa sistemática "promocional". Mas que nunca deixem de pensar naqueles que no momento, ainda precisam da ajuda material.

Pior é que algumas Casas, sob essa ótica da promoção, estão encerrando os seus trabalhos de assistência, para ficarem apenas com essa vertente. Imaginemos que numa determinada Instituição, chega um faminto, carente de tudo, e o dirigente diz a ele: - Aqui não temos mais esse trabalho, se quiser entrar assistir uma palestra e tomar um "passe". Senão, procure outro lugar. Não nos lembra a fala de Tiago: - "De que adianta isso, se o problema imediato dele era a fome?

Disse-nos recentemente um amigo protestante que o pastor falou no culto da semana passada que eles precisavam aprender caridade com os espíritas. E, infelizmente, nos parece que alguns dirigentes espíritas estão invertendo essa ótica, querendo que suas Casas se tornem como alguns "templos" ou "igrejas" para ministrarem apenas a palavra pela fé, sem obras como diz Tiago. Chico Xavier em uma das suas brilhantes frases disse: - Se a proposta de Allan Kardec fosse: - "Fora do Espiritismo não há salvação", em vez de "Fora da Caridade não há salvação", eu não teria seguido a Doutrina Espírita. É por essas e outras que esse homem foi e continuará sendo um dos maiores símiles de Jesus até os dias de hoje.

Que nossos dirigentes, líderes, oradores, escritores, e demais formadores de opinião espíritas, nunca se esqueçam que onde houver fome, sede, frio, doença, abandono e sofrimento de todos os matizes, será sempre bom vermos espíritas como o samaritano da parábola, trabalhando para amenizar tais infortúnios dos nossos irmãos em Cristo.
Muita paz!

FONTE: http://artigosumevor.blogspot.com.br/2013/06/caridade-assistencialista-ou-promocional.html


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