No frio intenso das horas, mais um dia de abandono é vivido. Pai e filho se abraçam em busca de calor da alma, única energia que lhe resta naquele canto de marquise. O prato vazio denuncia a fome e a ausência de pessoas nas ruas indica a distância da caridade, que poderia ajudá-los a superar a carência alimentar.

A uma rajada maior de vento, o filho, que se protegia com o pequeno e único cobertor que ali se achava, resolve cobrir o pai, que tiritava de frio.

 

Tocado pelo desprendimento do adolescente, o pai rasga o cobertor ao meio e devolve metade ao menino. Em meio à necessidade de se agasalhar, o garoto indaga por que o genitor agira dessa forma, ao que lhe foi respondido:
- Fiz assim porque, quando cresceres, poderás não ter um filho tão maravilhoso como eu te tenho agora, e na hora de sentires frio, já terás com que te cobrir.
A benevolência que mais toca o coração do homem sensível é aquela realizada pelos que vivem da caridade alheia. Dar um pedaço de pão a quem tem fome é um gesto fraterno, mas ver quem o recebeu dividindo a doação, em fatias menores ainda, com outros famintos, é comovedor.

Perguntamos a Deus, diante desse ato, até quando haverá no mundo mesas fartas e pratos vazios, estômagos saciados e outros carentes.

A imensa injustiça na distribuição desigual da renda é o efeito mais perverso da ambição desenfreada, uma das filhas do egoísmo.

O Brasil e o mundo ainda são marcados por essa cruel dicotomia. Poucos possuem muito, e muitos beiram à miséria socioeconômica por terem tão pouco.

No quadro espiritual das necessidades, nem sempre é simples perceber o estado deplorável da alma.

A fome do estômago grita alto, mas a ignorância age em silêncio, destruindo as estruturas da vida de relação.

O frio, que em uma realidade dói por fora, em outra, destrói por dentro.

Quantos seres que amamos ainda não conseguiram se desvencilhar da insegurança afetiva! Quantos se afeiçoam, fazem de tudo por submeter o outro através da desconfiança, de exigências, da exaustão. Por uma ótica distorcida, imaginam acontecimentos irreais e passam a vivê-los na imaginação.

Com o passar do tempo, se não procuram alterar o comportamento emocional, acabam abandonados. Engrossam, dessa forma, o número dos que sorriem galhardamente nas ocasiões festivas, mas gastam esforço maior para não deixar transparecer o frio interior.

As gavetas estão abarrotadas de blusas e paletós, guardados dos invernos anteriores. Não há espaço para novos, a não ser que o dono se desfaça dos que não usa mais, doando-os a quem precisa.

Os compartimentos gelados do coração, também pedem o agasalho do carinho, a se expressar em uma palavra afável, um sorriso generoso, pequeno gesto de ternura ou uma razoável concessão de tempo para se conversar.
O Espiritismo alerta que, se hoje podemos não viver nas faixas mais necessitadas da organização social, continuamos muito precisados de companheirismo e amizade, confiança e entrega a um novo tipo de relacionamento.

Nada disso se fará possível se não estivermos dispostos para tanto. Que nossa decisão não demore, porque seria muito triste vermos pessoas tendo que rasgar cobertores ao meio, diante de nossos olhos, para sobreviver.

Carlos Augusto Abranches Fonte: Reformador - outubro 1995


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