FONTE: O CLARIM - Por: Marcos Paterra - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.


A temática “doação de órgãos ou transplantes” é bastante questionada na Doutrina Espírita. Muitas pessoas ainda hoje veem com preconceito a ideia do transplante de órgãos, e entre nós, espíritas, correm informações conflitantes da possibilidade de o espírito ainda estar no corpo quando ocorrer o transplante; sobre essa questão Chico Xavier responde:

 

“Mesmo que a separação entre o Espírito e o corpo não se tenha completado, a espiritualidade dispõe de recursos para impedir impressões penosas e sofrimentos aos doadores. A doação de órgãos não é contrária às Leis da Natureza, porque beneficia, além disso, é uma oportunidade para que se desenvolvam os conhecimentos científicos, colocando-os a serviço de vários necessitados.”[1]

Esclarecemos que para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, mas é fundamental comunicar à sua família o desejo da doação. A família sempre se aplica na realização deste último desejo, que só se concretiza após a autorização desta, por escrito.

Considera-se como potencial doador todo paciente com morte encefálica[2] (ausência de perfusão sanguínea cerebral ou ausência de atividade elétrica cerebral ou ausência de atividade metabólica cerebral). O diagnóstico de morte cerebral significa, para o momento dos nossos conhecimentos médicos, a impossibilidade do retorno à vida, mas não representa o instante da desencarnação, nem a garantia de que o Espírito já tenha partido definitivamente.

Nesse ponto pode-se questionar a possibilidade da alma ainda encarnada sofrer enquanto seu corpo físico perece. Kardec, em O Livro dos Espíritos, esclarece na questão 156: “na agonia, a alma, algumas vezes, já tem deixado o corpo; nada mais existe que a vida orgânica”[3]. Consequentemente, tanto o corpo pode funcionar, tendo a desencarnação já se efetivado, quanto pode ocorrer a morte cerebral e o Espírito não ter ainda efetivado sua liberação total da carne.

Esclarecemos que a doação de órgãos no Brasil é regulamentada pela lei 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, e pela lei 10.211, de 23 de março de 2001, que reconhecem duas situações:

1. Doação de órgãos de doador vivo, familiar até 4º grau de parentesco, mais frequentemente de rim, pois é um órgão duplo e não traz prejuízo para o doador.

2. Doação de órgãos ou tecidos de doador falecido, que é determinada pela vontade dos familiares até 2º grau de parentesco, mediante um termo de autorização da doação.

Ocorre na segunda situação uma pergunta pertinente: se o desencarnante em vida não tenha solicitado a doação e seus parentes optarem por doar seus órgãos após a desencarnação, como fica o espírito nesse processo de transplante? A resposta vem de Emmanuel: “A doação de órgãos deve ser regida pela consciência individual. Se o desencarnado é muito apegado ao corpo material, poderá sentir-se um tanto perturbado, mas sem gravidade. Tendo notícia do real papel do próprio corpo na trajetória ascensional do Espírito, entenderá. Uma vez inútil ao seu trabalho, algo dele serve ao outro, cuja máquina perdeu só um parafuso. Como o carro fundido ou acidentado cede peças sãs a um menos lesado.”[4]

Sabemos que nossos órgãos carregam fluido vital em suas células, que vai ser transferido ao receptor, abrindo assim uma chance de revitalização no organismo doente. Devemos lembrar que todas as nossas células são desenvolvidas do zigoto ou ovo, o qual assume diversas formas, moldando-se e transformando-se em todos os nossos órgãos. Conforme André Luiz cita na obra Evolução em dois mundos[5], quando uma célula é retirada do corpo humano e passada para a placa de cultura em laboratório, ela retoma sua forma primitiva: o zigoto.

“Essa involução da célula para formatos embrionários ocorre porque não há mais comando do Espírito sobre a célula que foi colocada na placa de cultura, uma vez que foi separada do corpo biológico de origem. O comando do Espírito fica imantado ao perispírito no qual o arranjo celular se molda; desligado do corpo biológico, o órgão ou conjunto celular sai desta forma de imantação e assume uma individualidade própria. Quando aquele conjunto de células ou órgãos estiver reincorporado a outro organismo, sob a gerência de outra pessoa, outro Espírito com forma perispiritual, haverá uma readaptação celular.”[6]

Divaldo Franco legitima a doação de órgãos para transplante com a frase:

“Se a misericórdia divina nos confere uma organização física sadia, é justo e válido, depois de nos havermos utilizado desse patrimônio, oferecê-lo, graças às conquistas valiosas da ciência e da tecnologia, aos que vieram em carência a fim de continuarem a jornada.”[7]

O transplante de órgãos demonstra com clareza a estreita relação entre a morte e a nova vida e, portanto, constitui a sublime benesse: salva vidas. Em resumo, a doação de órgãos para transplantes não afetará o espírito do doador, exceto se acreditarmos que é injusta a Lei de Deus e que estamos no planeta à margem da Sua vontade.

Lembremos que nas instruções do grande arquiteto que rege o universo não há espaço para a injustiça e o transplante de órgãos (façanha da ciência humana) é valiosa oportunidade dentre tantas outras colocadas à nossa disposição para o exercício da caridade.

“(...) não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: Fora da caridade não há salvação.”[8]

 

1. XAVIER, Francisco C. Plantão de respostas. Pinga Fogo II. São Paulo: Cultura Espírita União, 1995.

2. Morte encefálica é uma lesão irrecuperável do cérebro. Como o cérebro comanda todas as atividades do corpo, sua morte é a interrupção definitiva das atividades cerebrais. Exames de circulação cerebral diagnosticam o quadro.

3. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. CAPÍTULO III – Da volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

4. XAVIER, Francisco C. Plantão de respostas. Pinga Fogo II. São Paulo: Cultura Espírita União, 1995.

5. XAVIER, Francisco, C. VIEIRA, Valdo. Evolução em Dois Mundos. Rio de Janeiro: FEB, 1999.

6. OLIVEIRA, Sérgio Felipe de. O Transplante e suas repercussões perispirituais. Será que o perispírito pode ser responsável pela rejeição ou não de um novo órgão transplantado? Revista Saúde da alma. Ed. AME Brasil. São Paulo.

7. FRANCO, Divaldo Pereira. Seara de Luz. Salvador: Editora LEAL.

8. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XV – Fora da Caridade não há salvação / O mandamento maior. Item 05. Rio de Janeiro: FEB, 2008.


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